quinta-feira, 1 de maio de 2014

Sim, Eu Tenho Depressão


A cena se repete, mais vezes do que gostaria, com outros elementos, com outros cenários, até com outros acontecimentos, porém o cerne da história é praticamente a mesma, por isso achei que dessa vez daria um texto, uma crônica, para ilustrar algo que levo preso à garganta.

Semana passada fui fazer uma entrevista de emprego em um colégio no Sacomã, bairro da região Sudeste da cidade de São Paulo, perto do Ipiranga e da Vila Prudente. A vaga era para ministrar aulas de sociologia, filosofia e história para turmas do 9º ano do Ensino Fundamental até o 3º ano do Ensino Médio, ou seja, seria responsável por uns 120 jovens ao todo.


Cheguei a tempo, o que, infelizmente, tem se tornado uma exceção na minha vida, e preenchi uma ficha e um questionário. Na ficha achei estranho ter uma pergunta sobre a minha religião, mas já vamos chegar nela, não pensei duas vezes e coloquei: ateu. O questionário era longo e chato, era sobre competência aplicada à pedagogia. Chato e longo, como eu disse.

Depois de preenchido ambos, entreguei para a secretaria da escola e essa passou para a diretora, que era quem iria me entrevistar. Logo, fui encaminhado para uma sala de aula, que funcionava para os cursos noturnos de enfermagem, o que aliás mostrou-se uma das situações mais estranhas pelas quais passei, pois estavam lá bonecos e partes de bonecos simulando o corpo humano, e tenho pavor de três coisas: altura, cobra e simulacros.

Bom, a diretora chegou, e a entrevista começou. Estava indo razoavelmente bem, em situações sérias como essas tendo a romper o casulo do silêncio e beirar a tagarelice. A conversa, falávamos sobre metodologias de ensino, sobre a USP, sobre a família, ela me explicava que a escola era de viés presbiteriano, e eu respondia que não enxergava nenhum problema nisso, mesmo sendo ateu.

Quando se aproximávamos ao fim da entrevista, eis que vem a pergunta de um milhão de dólares, que já estava no questionário, por sinal: você tem algum problema de saúde?

Para quem me conhece, seja leitor ou conhecido, sabe que possuo um código de ética e moral muito rigoroso, sempre calcado na verdade, na justiça e na sobriedade. Sou, tento ser, basicamente, um modelo kantiano de homem: faça o que o certo mesmo sendo errado. Por conta disso, respondo: sim, tenho. A diretora então me pergunta qual.

Falo com a maior naturalidade, depois de anos de recalque e medo sobre o assunto: tenho depressão. Aqui entra a maldição da literatura: não há palavras para narrar a feição da diretora, parafraseando José Silveiro, o Pai do Gol. Ela ficou visivelmente desconfortável com a informação, como se eu tivesse dito com a maior naturalidade que eu curtia alguma parafilia. Ela então me pergunta: e você toma remédio? Respondo, também com a naturalidade de antes: claro! essa é uma doença muito séria e crônica, sem cura e com componentes genéticos, ambientais e sentimentais, por que não tomar?

A diretora, que suponho deva possuir no mínimo uma graduação em pedagogia, parecia ter visto um ET, a Anunciação da Segunda Vinda, um pênalti batido para fora que garantiu o título da Libertadores, sei lá; então ela me solta a pérola: e você já tentou parar de tomar e não ficar com depressão? Ai foi a minha fez de ter visto algo totalmente fora da realidade ali expressa.

Muito educadamente explico a ela que depressão – não confundir com tristeza, ou melancolia – é tratada ou com remédios psiquiátricos ou com terapia ou, ainda, ambos. Ela diz que entende e então martela o último cravo no caixão: mas, puxa!, você não tem cara de quem tem depressão, você parece tão calmo, tão falante, tão... normal.

Na minha garganta, um líquido quente e viscoso sobe com a força do trovão. Nada mais tenho para dizer a não ser os adeus e até logos de praxe.

Não consegui o emprego, como dá para notar, e acredito, piamente, que não consegui-o mais pelo fato de ter uma doença que é tão comumente difundida, apesar de todo o preconceito, em detrimento de possuir, ou não possuir, uma fé contrária ao programa pedagógico da escola.


Ou seja, puro preconceito da diretora, que achou que somente pelo fato de eu tomar remédios – pois é, no plural, porque além da depressão, também sou diagnosticado com TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada) – “tarja preta” eu seria algum tipo de sociopata, quando de fato eu sou um cara legal até, meio idealista, mas legal. Falta-nos mais transparência e conhecimento sobre certos assuntos, afinal foi até leve, mesmo que condenável, o que eu passei. Só imagino que tem algum problema mais grave e socialmente repudiado, como alcoolismo, passa no seu dia-a-dia. Pois é, são em situações como essa que vemos o quanto podemos ser preconceituosos e ignorantes no nosso cotidiano, às vezes até sem nos apercebemos disso.